A Política Externa Brasileira é um triste reflexo de como o nosso país fincou pé em um histórico despreparo no lidar com as abissais mudanças na disposição das relações entre as nações, sejam elas hoje irmãs conquanto ontem se fizessem odiadas rivais e inimigas ou estejam elas mais próximas da velha anedota familiar do pobre parente distante - como o próprio Brasil e toda a América Latina de lambuja que começa a finalmente colher frutos da decadência de expressões como “terceiro mundo”, ainda que sob um atraso de décadas desde o fim da Guerra Fria.
Antes fosse simplesmente o caso de despreparo, já que tudo bem, este está mesmo presente em todo o plano sócio-político nacional, das agências reguladores ao município que erra nas contas de responsabilidade fiscal por pura... digamos, falta de fino trato com as questões econômicas internas. No entanto, desde o saudoso Barão de Rio Branco, considere-o pai da subserviência americanalhista ou não (pronto, logo virá alguém querendo me bater por um entre-vírgulas abusado novamente), o corpo diplomático tupiniquim tem sido exemplo do quanto homens de grande inteligência e preparo estão aí, presentes, ainda que bem instrumentados e mal utilizados. Sem querer comprar mais brigas e nem comentar, por exemplo, sobre alguns bens que não se sabe como o Rui Barbosa conseguiu comprar, apesar das várias cartas de pedidos e “favorezinhos” ao então ilustre Vice-Presidente do Senado (ops, saiu sem querer!), o “Águia de Haia”, assim como Joaquim Nabuco, não deixaram de ser figuras de grande intelecto e capacidade. A prova do Instituto Rio Branco que dá acesso à carreira diplomática é considerada das mais difíceis do país, quiçá um artigo definido aí, colocando-a como primeira no ranking. São quatro fases, provas de duas línguas estrangeiras, redação, interpretação de texto, economia, história do Brasil e do mundo, toda sorte de geografia natural e política, direito constitucional e internacional além de um teste de pré-seleção recheado de atualidades que vão desde conflitos políticos em Angola às últimas novidades das reuniões de cúpula da ONU.
Então, a despeito do orgulho, finesse e charme intelectual que envolve os capacitadíssimos formandos do Itamaraty, por que o Brasil continua a fazer papel de mixórdia no tratar com os próprios interesses no contexto global e outras expressõezinhas graciosas e da moda do mundo-moderno-antenado-multidinâmico-e-plural?
A verdade é que as vagas são poucas. Pouco mais de 100 diplomatas por ano constituem um número pequeno para a dimensão das ambições nacionais no mercado e cenário externo. Ou nem tanto. Mas a prova é ridiculamente não-condizente com a realidade educacional brasileira. Ainda, ou talvez exatamente por isto, mais louvor aos congratulados. No entanto, por curiosidade qualquer, tente passar a vista pela lista de aprovados. A percentagem de sobrenomes estrangeiros é (in)crível. Diplomatas fazem filhos diplomatas. Um cursinho preparatório – das pouquíssimas opções existentes ao tamanho continental do país, chega a custar mais de R$4,000 englobados todos os módulos.
O Itamaraty é elitizado de berço, salvas raras exceções, e isto não é novidade. O índice de aprovados do Norte/Nordeste é desalentador. O mesmo em relação a outras regiões fora do inflado (às vezes odiado, às vezes amado) eixo Sul-Sudeste. Porém, junto com o oba-oba de universidades privadas e cursos de Relações Internacionais, os números da demanda e observância à carreira tem aumentado de forma vertiginosa. E assim seguem subindo os profissionais da área e a qualidade que os compõem. O que não muda é que o Brasil tropeça nas próprias pernas. A falta de continuidade de políticas governamentais em áreas imprescindíveis como a educação é sempre ressaltada ao longo dos tempos. Acabadas as ilusões, igualmente acontece às políticas externas.
As relações Brasil-África ao longo do tempo, por exemplo, formam um microcosmo de como não se encontram constância e planejamento político – interno ou externo, continuado no Brasil. No começo (nosso, enquanto já meio do caminho para o lado de cima do mundo), “Continente Negro”, “Porção Atlântica” e “Subsaariana”, sequer eram denominações existentes perante a ignorância de insistir em ver a África como uma coisa só, homogênea, ainda que a pluralidade por lá seja ainda hoje impossível de contabilizar-se defronte tantas variantes culturais. Para as razões deste silêncio, oras, basta que levante o dedo o brasileiro do início do Governo Vargas para trás que admitisse o negro como formador da história e cultura brasileira. No máximo, foi deixado o papel de coadjuvante, “raça” inclusa às pressas nas páginas dos livros escolares e digno de um único herói (que ainda tentam difamar por, entre outras coisas, mais um absurdo de idéias tal qual pensar desmerecer alguém ao tachar de homossexual como fizeram com Zumbi dos Palmares). Aliás, ainda hoje, não se veriam muitos dedinhos aos céus.
Lá pela década de 50 e depois de Gilberto Freyre começam a mudar as coisas. E ouço até certos elogios a governos como o Dutra pelo início de uma aproximação com a cultura africana por parte do Brasil, apesar deste ser apenas resultado do que os teóricos da área chamam de “alinhamento automático” com os EUA, um rompimento de Dutra com a política de “jogar dos dois lados” feita por Vargas com a Alemanha e o Tio Sam. Mas vocês já viram o tamanho da cabeça do Dutra? Um cabeção daquele não podia bater bem. Por incrível que pareça, as coisas só viriam a melhorar com Médici (sic! sic! sic! sic! siiiiiic!) numa abertura real quando se começa a discutir romper com aquela velha devoção de colônia para com a metrópole. Portugal lutou para deixar as neo-colônias, mesmo quando toda a Europa já deixara apenas a carcaça da África, os gajos queriam chupar até os ossos... salve-salve, querido Salazar!
Depois, esquecimento mais uma vez. Não parece plano de governo que é tudo igual só que ninguém termina o pouco que o outro começou? Pois é, vêm os anos 90, volta a África a parecer ter alguma espécie de prioridade nas políticas externas. Só que no governo FHC isto significa liberalismo econômico e aquela desconcertante abertura de mercado a uma África que passa então a estar cheia de Mcdonalds de um lado e miséria e sede do outro. Infelizmente, pouco está mudado atualmente e o grande Flávio Saraiva, especialista no assunto, cunha muito bem a atual política externa brasileira de “universalista” e “eufórica” ao discorrer sobre a mais nova discussão da CPLP para as mudanças na língua portuguesa com intuito de unificação dos países lusófonos. Ao mesmo tempo, defende uma volta ao “pragmatismo” que, mais uma vez citando ícones do passado, talvez tenha sido melhor inaugurado por Alexandre Gusmão.
O que retorna à pergunta: quais as amarras aos diplomatas brasileiros? A resposta é política. “Só pode ser”, é o que perpassa a mente. O retrógrado pensamento de lideranças de partido que dirigem o país e seguem confrontando-se sempre, mas nunca atuando sob um interesse maior que se dignifique à nação atinge veemente a todas as camadas da vida brasileira. Saiu há pouco a revista dos estudantes da turma 2005/07 do Instituto Rio Branco. Diplomatas enfim, posto de terceiro secretário do Itamaraty. A revista se chama “Juca” (http://www.irbr.mre.gov.br/juca01.htm) e traz logo de cara uma entrevista com o Embaixador Alberto da Costa e Silva, famoso africanista. A preocupação está lá, sempre esteve, é a impressão que se tem ao longo desta entrevista e muitos outros artigos publicados por diplomatas brasileiros. De ações pouco concretas, no entanto, temos padecido bastante. A história das relações com a África é a mesma com o Mercosul, guardadas as devidas proporções. Um modelo de inserção internacional frágil, vide a invasão anglófona aos países africanos que são historicamente lusófonos. Muito além de neologismos que vêm nos rótulos dos produtos importados, do “cheese burger” e “disc joker” presentes no mundo inteiro, são países que estreitam mais e mais as relações por questões não apenas econômicas, mas de uma política de aproximação por parte das outras nações onde somos nós deficientes.
E pode-se perguntar então, onde está a relação com a supracitada Mercosul? Pergunte e contabilize quantas pessoas que você conhece que viajou pela América Latina e quantas foram para Miami, qualquer Disneylândia ou Nova Iorque. Ou que mesmo em país vizinho, não apelou para o inglês na hora que o portunhol apertou. Ou o quanto Cabo Verde e Angola estão na TV brasileira além daqueles canais chatos que filhos e netos do Brasil sequer colocam na memória do televisor?
Não se trata apenas das derrotas na OMC, dos erros nos subsídios a Embraer nem da vergonhosa posição oficial tomada pelo Itamaraty anos atrás ao apoiar o Fujimori no Peru (é né... memória meu caros, é preciso ter memória!). Trata-se de uma valsa incongruente com o que é proposto nos sites oficiais, nas posições oficiais e nos discursos oficiais. Ou seja, um baile de erros oficiais. De esquecimento.
E só para não perder a tacada, é preciso retirar a blindagem do Itamaraty e enfiar no meio desta história um “apesar da excepcional qualidade da formação do corpo diplomático”. Todos os gastos do Itamaraty são contabilizados no Escritório Financeiro do Ministério das Relações Exteriores em Nova Iorque cujo detalhamento não passa pelo crivo do Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira). Resultado: mais de R$150 milhões desembolsados fora do país não se sabe exatamente onde. O MRE foi responsável por quase metade dos gastos da União em anos aí passados. O Tribunal de Contas da União (TCU) então corre atrás de pedir relatório, o que é quase impossível, pois o rastreamento regressivo deste tipo de gastos, muitos fora do país, passa por uma blindagem igualzinha àquelas que da preparação dos diplomatas. Ao mesmo tempo, o salário de um Terceiro Secretário, cargo de entrada na carreira, mal beira os R$9 mil o que, convenhamos, é até ( desculpe, falo isto ainda irresoluto), módico em relação a outros salários iniciais do Legislativo sem precisar comentar o Judiciário, né? Percalços ideológicos sempre existiram, por isto, é inútil a Veja dedicar páginas amarelas ao ex-Embaixador brasileiro em Washington denunciando as mudanças no leme. Ou pior ainda, talvez seja mesmo válida a denúncia e as faltas acabam justificadas aos pífios papéis como o de liderança brasileira no Mercosul – reconhecido por ninguém, almejado apenas pelo próprio Brasil, ou da presença de tropas no Haiti, uma tentativa mimada do jovem país querendo a toda custa chamar a atenção e conseguir um assento no Conselho de Segurança da ONU.
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