Klabin pega emprestado a 8,6% e empresta a 11,25%
No post anterior (clique aqui), falava do aporte que o Governo fez no BNDES, de R$ 7,3 bilhões.
Em poucas palavras, para fazer isso, o Governo pega emprestado a 11,25%, e repassa ao BNDES a 6,25%. Logo, tem 5% de prejuízo na operação, sob a forma de "subsídio" à produção.
Nada mais normal, se não fosse por um motivo.
Em anos anteriores, o BNDES não conseguia emprestar todo o seu recurso, porque a TJLP ainda estava muito alta. As empresas não teriam projetos disponíveis que tivessem mais retorno que isso.
Porém hoje a situação é outra, e o BNDES não dispõe de tanta oferta de recursos no FAT, e recorre ao Tesouro.
Mas muitas empresas estão simplesmente pedindo dinheiro emprestado no BNDES, e ao mesmo tempo compram os mesmos títulos que o Governo teve que vender para financiar o próprio BNDES.
A empresa tem dinheiro em caixa, mas prefere comprar títulos do Governo a 11,25%, e pegar dinheiro emprestado no BNDES a 8,5%. No final, o Governo está "dando"dinheiro a quem não precisa.
Vamos ver o caso mais gritante: a empresa Klabin.
A Klabin é a maior produtora de papéis do país. possui 200 mil hectares de florestas plantadas. É um empresa que merece respeito por praticar boa governança, e por ter uma política ambiental decente.
A Klabin, em seu balanço de 2006 (clique aqui), apresentava R$ 2,258 bilhões em aplicações financeiras. Em outras palavras, está investindo seu dinheiro, em grande parte em títulos públicos, a 11,25%. Está emprestando ao Governo a 11,25%.
Por outro lado, o BNDES empresta à mesma Klabin, R$ 748 milhões, a uma taxa de juros média de 8,6% (conforme próprio balanço).
A atitude da empresa está correta: maximizando seus recursos. Mas o Governo não deveria estar aportando os recursos do Tesouro em situações como essa. A empresa deveria investir primeiro seu próprio dinheiro, para só depois ter direito a pedir emprestado ao BNDES.
Fazendo uma conta grosseira, o Governo paga de juros à Klabin, pelos mesmos R$ 748 milhões, R$ 84 milhões. E a Klabin só paga ao BNDES R$ 48 milhões.
Quer dizer, só com esta empresa o prejuízo é de R$ 36 milhões.
É justo isso?
A empresa investe com recursos do BNDES, mas se nega a fazer os investimentos com seus próprios recursos.
18 de Fevereiro de 2008 às 23:51
“A empresa deveria investir primeiro seu próprio dinheiro, para só depois ter direito a pedir emprestado ao BNDES” - O argumento é válido, mas como regulamentar exatamente o tempo, quantidade e mesmo as áreas de aplicação deste dinheiro e, assim, definir o “antes” a ser cumprido para poder, então, uma grande empresa pedir dinheiro emprestado ao BNDES?
A questão está muito mais não na restrição às grandes empresas, mas na desburocratização e facilitação cada vez maior às pequenas e médias empresa exatamente como dito Valter Domingos no comentário anterior.
Por outro lado, o problema não reside em si no “emprestar a quem menos precisa”, até porque não é totalmente verdade, já que este aumento de margens de lucro são as mesmas margens sobre a qual qualquer investimento privado trabalha em cima a fim de obter uma segurança que virá a fomentá-la a tomar investimentos de maiores riscos.
Justamente estas grandes empresas, assim se fazem porque conseguem manter uma margem maior de lucro a ser investido em áreas de risco que, dando certo, alavancam o país.
O médio e pequeno empresário não vai poder investir, por exemplo, em licitações públicas da tecnologia 3G com milhões em infra-estrutura impossíveis de serem desembolsados apenas pelo investimento público. Para fazer isto, é necessário exatamente estar fora da alçada do “pequeno” e “médio”. Ou, então, em parcerias público-privadas de tecnologia de ponta. Na indústria farmacêutica as regras são igualmente cruéis, mas só por falta de uma busca de humanização governamental. No entanto, o governo sozinho não dispõe de capacidade para atuação na área, etc. Os exemplos são inúmeros.
É preciso, da mesma forma, salientar que os observadores (mídia e oficiais) responsáveis pelos empréstimos via BNDS têm feito um trabalho exemplar. Há alguns anos atrás, principalmente anos 80 e começo dos 90 (vide a roubalheira de monstros aleijados tal qual SUDENE), não havia uma regulamentação de que tipo de empresa recebe os financiamentos e, principalmente, em que área o dinheiro deveria ser aplicado - se realmente visando um desenvolvimento nacional.
Tem-se que abrir mais espaços para uma tributação menor à base da pirâmide, pôr medidas como o super-simples para cumprir totalmente o seu papel; tira a classe média do sufoco irreal em que se encontra historicamente. São necessárias, por exemplo, medidas como um comprometimento explícito do receituário do BNDES advindo diretamente da tributação do FAT com o fincanciamento a pequenas e médias empresas sob uma questão realmente de priorização.
Uma interferência restritiva nunca será bem-vinda e aceita pelo mercado. Infelizmente, e me sinto tão velho quanto os tantos outros que eu mesmo critiquei por dizer isto, são os grandes empresários que não só mantêm as rédeas, mas também se encontram hoje, mais preparados para recuperar uma economia em cruéis momentos de oscilação como a atual do mercado internacional. Problemas que no âmbito sequer são realmente nossos, mas que nos atingem de cheio.
Muito mais, é preciso expandir o acesso a quem precisa, torná-los de uma posse concordante com o poder que realmente representam (a porcentagem de micro, pequenas e médias empresas no mercado brasileiro deve ser muito bem conhecida por todos aqui).
A urgência não está no levantamento de que o BNDES financia quem não precisa. Mas sim de que o BNDES não anda financiando quem precisa ou o tem feito com um retorno indevido de segurança.