Volatilidade: sf. qualidade do que é volátil, que não é firme ou permanente; inconstante;
Apesar da entrada acima, é preciso guardar devidamente a aplicabilidade da semântica. A economia americana ainda é – e por muito tempo ainda, certamente continuará sendo, o grande centro dinâmico da economia mundial. A ela, volatilidade não recai sob as cobertas de eufemismo algum. Mas deixemos as explicações teóricas de lado, até porque muito se desdizem os próprios especialistas. Um exemplo prático que comprova a situação confortável da economia dos Estados Unidos mesmo quando sofre grandes crises, é a sua relação com a China.
Ainda se insiste em arriscar dizer que a economia chinesa é tida como grande e talvez única concorrente da terra das oportunidades. E o grande canal escoadouro dos dólares, seu maior comprador, encontra-se do lado de lá do globo. No entanto, todo este fluxo de capitais, seja em forma de títulos do tesouro nacional americano ou até mesmo de commodities, retorna à economia americana em forma de produtos. Ou seja, a China "devolve" o que de lá tira com produtos como carros, por exemplo. Invadindo o mercado americano, o sindicato das montadoras dos EUA, grande símbolo da força motriz do operariado do Tio Sam, já anda cambaleando, desesperado com a concorrência desleal chinesa. A GM e os utilitários esportivos da Ford sofrem pressão aterrorizante dos sedutoramente baratos automóveis chineses. Afinal, as regalias dos trabalhadores americanos em fábrica de carros parecem um verdadeiro sonho em comparação com os direitos trabalhistas de qualquer outro operário do mundo, sendo apenas comparáveis a alguns ganhos históricos dos grandes mercados europeus. Já na China, não só se vê um volume de mão-de-obra que dispensa comentários, mas esta mesma mão-de-obra é também deslealmente barata e segue no embalo autótrofo de um grande poder de compra.
Porém, se a economia americana vai mal, o que o próprio mercado consumidor americano deixa de adquirir representa a rebatida na bola de neve da crise de volta ao mercado chinês que perde seu grande comprador. Desta forma, todos os lados perdem. Se a construção civil americana vai mal, os fabricantes de materiais de construção do mundo inteiro perdem. Ainda, outros diferenciais que acomodam os EUA no seu patamar acima do resto do mundo são fatores como o de ser o seu Banco resto do mundo s acomodam o Central o emissor da moeda que dita as transações comerciais de qualquer país do globo assim consolidado desde o Trato de Bretton Woods.
Pois bem, os títulos do tesouro americano constituem o investimento mais seguro do planeta. Uma terceira guerra mundial não afetaria em termos reais a liquidez do dólar por um bom tempo, pois o próprio mundo tem, sob reservas internacionais de cada país, a sua cota da moeda universal. No entanto, até a economia americana chega próximo a índices de grau de saturação quando necessita encobrir os rombos deixados pela falta de movimentação da classe consumidora por um déficit de crédito instigado por crises como a atualmente vista no setor imobiliário. Os riscos e todos os problemas que afetam a economia americana se transformam em ondulações de demanda e oferta de dólares e títulos diretamente ligados a uma baixa/alta da liquidez mundial. Mas ainda nestes casos, o referencial continua sendo a moeda americana. Mesmo a grande quebra da bolsa de 29 e não deixando de demonstrar o respeitável louvor devido ao New Deal, a recomposição da economia americana nada mais foi do que a pesada mão do intervencionismo governamental de Roosevelt. Exatamente o oposto da cartilha cantada pelo laissez-faire do liberalismo.
E é aí que se encontra o perigoso ricochete zunindo nas costas das economias emergentes. Com o mercado global em crise, há uma fuga de investimentos de quaisquer mercados de risco - como o brasileiro, apesar dos 160 bilhões de reservas internacionais orgulhosamente ostentados pelo Banco Central. O irônico é que a sustentação deste ar tranqüilo, quase risonho no rosto dos economistas impassíveis no telejornal, tem seu lugar graças justamente ao intervencionismo governamental na nossa economia monetarista. A reação em cadeia nos afeta, sim. E a “volatilidade”, por sua vez, é um conceito não aplicável deste lado de baixo do equador, pois o ritmo cadenciado e em médio prazo da crise anteriormente mencionada, exige a intervenção cada vez mais explícita do governo na economia. E se mesmo nos grandes mercados isto não é visto com bons olhos – a intervenção governamental é sempre igual a instabilidade, risco, suspeita de que algo pior está por vir – por aqui, pode-se ter certeza de que o nosso status quo não será garantia alguma contra a coragem efêmera dos investidores mundiais.
A volatilidade, por aqui, é um termo que tem o sorriso do Camdessus. O mesmo sorriso que dizia ser passageira a crise da Ásia. Feito do mesmo cinismo dilacerante de quem só sabe discutir o controle de fluxos de capitais em época de calmaria.
Assim, para combinar com o sorriso... o sinal tem de ser amarelo.
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